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A música que vem do coração

O coral Aponte traz a chance de um futuro diferente para um grupo de jovens de Salvador


  • Arley Prates

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Eles vão chegando aos poucos, ainda agitados com o fim da aula na escola estadual Bolívar Santana, que fica bem ao lado da igreja. Logo recebem a tarefa de arrumar nas pastas a letra da música que vai ser a lição do dia. É assim toda terça-feira desde maio do ano passado quando o coral Aponte foi criado. A ideia surgiu de um projeto da paróquia Ascensão do Senhor junto com alguns jovens do Movimento Escalada para desenvolver ações de integração entre os alunos do colégio e a igreja. Padre Manoel Filho sentia que faltava música para dar ritmo a essa união. A engenheira química aposentada Valquíria Carvalho e a pedagoga, também aposentada, Graça Sampaio e mais duas voluntárias abraçaram a missão.

O coral que começou com pouco mais de 10 crianças tem hoje 35 alunos entre 12 e 18 anos e uma fila de espera com mais de 30 nomes. Pra fazer parte é preciso ser aluno da Escola Bolívar Santana e gostar de música. Eles recebem um lanche, o material das aulas e mais uma ajuda de custo de sessenta reais por mês. Tudo graças ao apoio da paróquia e do centro comunitário Monsenhor José Hamilton. A ajuda de custo é entregue diretamente aos pais logo após um bate papo que eles participam todo mês com temas variados. Para Graça Sampaio, essa é uma oportunidade de aproximar os alunos, a família e a igreja, além de passar conhecimento.

“O dinheiro é uma grande ajuda para essas famílias, mas é muito mais do que isso. É o crescimento da dignidade, a formação de uma nova família”, diz Valquíria Carvalho, a tia Val como ela é carinhosamente chamada pelas crianças. Ela conta que tem muito orgulho de dedicar tempo e carinho a esses alunos.

Para o maestro carioca Fernando Teixeira, que coordena o coral e ensina toda a base musical, os alunos aprendem a ouvir, a ter disciplina (são boas e necessárias broncas ao longo da aula). Fernando mora há 15 anos em Salvador e desenvolve projetos em outras comunidades como o Boca de Brasa, em Cajazeiras. Ele diz que já sente um amadurecimento em muitos alunos e é com a música que eles podem ir mais longe. “A música é a transformação do ser, ela dá uma perspectiva de vida”, afirma.

Durante a aula, que dura 60 minutos, os alunos fazem um breve alongamento corporal, aquecem e soltam a voz devagarinho. Começam tímidos, mas depois lá estão eles cantando. Deivid Moura, de 15 anos, diz que sempre cantou em casa, no chuveiro, mas é a primeira vez que recebe um incentivo pra aprender a cantar de verdade. “Eu gosto de tudo, da preparação vocal, das noções de corpo humano que são passadas, do lanche”, diz rindo. O Deivid está gostando tanto que passou a frequentar também, às sextas-feiras, as aulas de teoria musical e violão que o maestro Fernando Teixeira desenvolveu para os alunos que querem se aprofundar um pouco mais. Todos podem participar desde que não faltem às aulas do coral.

A Dayane Siqueira é a aluna mais antiga, tem 18 anos e está no coral Aponte desde o começo. Ela já nem é mais aluna do Bolívar Santana, mas se apaixonou pelo curso e vai continuar. Ela conta que não tem como pagar por um curso de música e no coral ela tem aprendido muito. Dayane não sabe se vai fazer vestibular pra direito ou fisioterapia, mas quando questionada se tem alguma convicção, ela respondeu: “Quero ser cantora, isso eu tenho certeza!”.