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Pastoral do Migrante

A pastoral do migrante da paróquia Ascensão do Senhor acolhe venezuelanos que chegam à Bahia

“Nós tínhamos comida, saúde, qualidade de vida. De repente, perdemos tudo.” Foi com esse desabafo da estudante de jornalismo Estefany Rodriguez que nós começamos a conversar. Estefany é uma jovem sorridente que está em Salvador há 4 meses. Ela veio atrás da família que chegou há 3 anos. Mora com o pai, a madrasta e dois irmãos mais novos. Hoje ela vende donuts (um pãozinho com cobertura doce bem famoso nos Estados Unidos) em feiras, alguns eventos e no pátio da igreja Ascensão do Senhor todos os domingos. Tem uma vida modesta, mas nem sempre foi assim. O pai de Estefany, Juan Rodriguez, é jornalista e fotógrafo profissional, trabalhava no centro de imprensa do governo. Ela conta que eles tinham uma vida boa, casa mobiliada, carro, mas foram perdendo tudo com as oscilações do governo e a crise financeira que vem devastando o país desde 2013, quando o então presidente Nicolás Maduro assumiu o poder.

Em 2015, Juan decidiu vir para o Brasil e Estefany foi morar com a avó paterna. Ela estudava pela manhã, trabalhava como caixa de supermercado à tarde e como garçonete até de madrugada. Com o salário mínimo venezuelano valendo muito pouco, menos de cinco reais na moeda brasileira, e sem perspectiva de melhora, a jovem decidiu vir atrás da família. Hoje eles moram num apartamento pequeno alugado no bairro da Pituba. Juan mantém a família com a venda dos donuts, do artesanato que a mulher faz e com o trabalho de fotógrafo. A agenda dele tem muitos eventos até o fim do ano graças aos contatos que ele conseguiu na feira do empreendedor, que a paróquia organizou para os venezuelanos mostrarem os seus dons em junho deste ano. Estefany ganhou uma bolsa de estudos e está cursando psicologia na Universidade Católica. “Hoje está tudo muito melhor e graças a ajuda da igreja”, diz Estefany.

A pastoral do migrante da Ascensão do Senhor acolhe cerca de 20 famílias. Uma vez por mês eles se reúnem, falam das necessidades e os pedidos vão sendo atendidos, dentro do possível, através de doações. Bolsas de estudo, cestas básicas, roupas, eletrodomésticos usados, vagas de trabalho... dinheiro só em casos de extrema necessidade. “Damos a oportunidade de sustentabilidade e enquanto isso, corremos atrás de ajuda”, conta padre Manoel Filho. A pastoral tem o apoio de duas advogadas voluntárias e está sob a coordenação da assistente social aposentada Márcia Mata. Ela fala que recebeu a missão como um milagre, quando menos se deu conta já tinha aceitado o convite de padre Manoel. “Tenho 62 anos e estou aprendendo muito com os migrantes. É mais uma ação de Deus na minha vida. O que importa é acolher essas pessoas e transformá-las.”

A Bahia não faz parte dos estados escolhidos pelo governo federal para receber venezuelanos, mesmo assim muitos estão vindo através da ajuda de amigos e da igreja. Segundo o IBGE, este ano chegaram mais de dez mil imigrantes na Bahia vindos da Venezuela só no primeiro semestre. O técnico de segurança João Berria, a mulher Monica Burgos e os três filhos pequenos chegaram em 2015 ao Brasil. Já passaram por Belém, Manaus e estão há um mês em Salvador. Eles vendem geladinho na praia e na feira da paróquia aos domingos. Entraram no Brasil com visto de refugiados e já tiraram a carteira de trabalho, que chega na semana que vem. João acredita que com a carteira vai ser mais fácil conseguir um trabalho formal. Ele e a mulher deixaram o emprego em Caracas e hoje moram num quarto no bairro da Boca do Rio. Monica conta que lá eles tinham dinheiro, mas não tinham o que comprar, faltava comida. A insegurança era enorme. “Não queremos mais voltar, mesmo que o governo mude, a situação não vai mudar.”, diz Monica.

O Luis e a Elizabeth também não querem voltar pro país onde nasceram. Eles estão há 1 ano em Salvador. Vieram a convite de uns amigos que já moram há muito tempo no Brasil e trabalham numa multinacional. O Luis é designer gráfico, trabalhava para partidos políticos que fazem oposição ao governo e a mulher é pedagoga, dava aulas numa escola. Tinham grandes sonhos e ideais. Tudo que não combina em nada com um governo ditador e autoritário. O jeito foi aceitar a ajuda dos amigos aqui do Brasil, vender alguns móveis e vir só com as malas pequenas em busca de uma vida melhor.

Esse melhor ainda está um pouco longe, Luis e Elizabeth não conseguiram emprego e vivem da venda de doces venezuelanos e do papelon – uma bebida feita de rapadura e limão. Os amigos que trouxeram os dois para Salvador estão indo embora pra São Paulo. Eles têm um mês para conseguir outro lugar pra morar. Luis se emociona ao lembrar-se da família na Venezuela. Ele conta que não é fácil deixar tudo pra trás e ter que começar uma nova vida do zero. Ele tem que ser forte o tempo todo para dar apoio à mulher que é filha única e ainda chora todos os dias de saudade. A igreja, os amigos e a fé são os alicerces. “Acredito em Deus e aqui conseguimos acreditar também nas pessoas que ajudam sem querer nada em troca.”

Venezuelanos, bolivianos, sírios, haitianos, brasileiros....Apenas um pouco de solidariedade pra quem tem tão pouco de tudo.