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A importância do silêncio na vida, na comunidade e nas relações pessoais


  • Angela Maria Garcez Leitão Guerra

“Marta, toda preocupada na lida da casa, veio a Jesus e disse: Senhor, não te importas que minha irmã me deixe só a servir? Dize-lhe que me ajude. Respondeu-lhe o Senhor: Marta, Marta, andas muito inquieta e te preocupas com muitas coisas; no entanto, uma só coisa é necessária; Maria escolheu a boa parte, que lhe não será tirada.” (Lucas 10, 40-42)

Vivemos nesta nossa sociedade contemporânea, uma necessidade extrema de falar, de expor pensamentos e opiniões sobre tudo e todos. Somos levados a uma exposição diária e contínua: muitas fotos para serem mostradas e poucas vivências a serem guardadas, palavras a serem espalhadas e menos ouvidos para a escuta. Todos se atropelam no afã de dizer algo, ainda que desnecessário enquanto poucos observam, avaliam, escutam.

A postura de Marta, tão inquieta e atarefada, mergulhada na sua rotina, parece contrapor com a quietude serena de sua irmã Maria. Normalmente, com um olhar vesgo e pouco apropriado, somos impelidos a tirar deduções indevidas desse encontro de Jesus no aconchego daquela família de Betânia. Seria Maria, a certinha e Marta, a errada? Longe desse julgamento intempestivo está a sabedoria do Senhor em nos mostrar a premente necessidade do equilíbrio: a vida ativa e a contemplativa, o agir e o orar, o falar e o escutar.

Parece-nos a grosso modo uma tarefa fácil, mas nos tempos de hoje, onde os ruídos estão por toda a parte, mais do que nunca o silêncio é algo muito precioso de se conseguir. Sem ele, como aflorar nossos sentimentos ao escutar uma bela música, que nos leva à emoção em cada som? Sem o silêncio, como apreciar a natureza, as belas obras de Deus e deixar-se tocar pela brisa suave. Sem o silêncio como conversar com Deus, contar-Lhe nossas aflições ou agradecer por Suas graças, falar-Lhe das nossas tristezas e louvar pelas alegrias recebidas? Escutar a música do silêncio é divinamente mágico! Corremos o risco de repetir automaticamente algumas orações já conhecidas, mas sem imprimir em cada uma delas a sua alma, o seu carimbo pessoal. No silêncio, a nutriz olha para seu pequeno bebê e, sem necessitar de palavras, apenas com o olhar, mãe e filho se sentem acalentados por uma onda de amor.

Sempre a inquietude foi uma marca em mim, não sabia ficar parada, apenas contemplando algo. Portanto o silêncio de Maria foi algo inspirador para mim, me fez sentir a necessidade de mudar, de estar atenta ao que se passa ao meu redor. Ao fazer o Caminho de Santiago com meu marido e companheiro de uma vida (e me reporto sempre a este período intenso do nosso viver), aprendi a escutar o silêncio, a contemplar as obras de Deus e aquelas feitas pelos homens para louvá-Lo.

Deus, na sua grandiosa sabedoria, criou-nos para ainda sermos moldados, “como barro na mão do oleiro”. E, não satisfeito, presenteou-nos com inteligência ainda a ser polida e trabalhada com diversos dons, o que nos daria uma imensa responsabilidade. Claro, com tantas possibilidades, caberia ao ser humano amadurecer, para em sua plenitude conseguir alcançar o objetivo que o Criador nos propôs! Contudo, no seu plano, deu-nos o maior mestre para nos ajudar nesta tarefa, o Espírito Santo! Porém nada disso acontece sem que estejamos serenos e calmos para interiorizar cada um desses passos.

Nesse caminho de aprendizado, lembro do que São Francisco de Assis dizia: “Pregue o Evangelho em todo o tempo. Se necessário, use palavras.” Portanto, a atitude de Maria na escuta, no silêncio, se completaria com a ação de Marta. Mais do que nunca entendo que o nosso agir é o que de melhor temos a oferecer. Assim, na família, entre os amigos, na comunidade, onde quer que seja, que saibamos usar o silêncio para aquietar o nosso coração. Afinal, como ainda nos ensina o “poverello de Assis”: “Tome cuidado com a sua vida, talvez ela seja o único Evangelho que as pessoas leiam.”

Hoje entendo a necessidade do silêncio como fonte produtora de reflexão, forma de depuração de sentimentos e amadurecimento de nossa fé!

“Maria conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração.” (Lucas 2, 19)

Angela Maria Garcez Leitão Guerra

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