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O Natal é momento de reflexão ou de consumo impulsivo?


  • Alberto Brandão

Em tempos de crise, o Natal é a esperança de melhora nas vendas, no consumo. Shoppings centers de Salvador todos enfeitados com o pinheiro, árvore típica do Natal, e suas decorações específicas­:carrosséis, neve, carrinhos, abelhinhas, Paris, casa do papai Noel... Em todo lugar tem guirlandas, piscas coloridos e enfeites. Um sonho para qualquer um que chega. Tudo pensado numa estratégia de marketing para atrair os consumidores.

No entanto, não é necessário sair de casa para ser incentivado ao consumo. A internet nos bombardeia de propagandas diariamente. A última que recebi do Natal comércio, foi um vídeo do Papai Noel convidando os pais a comprar um vídeo personalizado do “próprio” papai Noel para as crianças. Segundo a empresa Deloitte, em pesquisa recente para o Natal de 2017, 75% dos entrevistados são influenciados pelas mídias sociais e as vendas pela internet podem chegar a 51% do total.

Num momento em que quase todos brasileiros recebem o seu décimo terceiro salário, o marketing desperta o impulso consumista, como tentativa a alavancar a economia. Porém não podemos negar que o consumo faz parte do nosso dia a dia. Alimentos, vestuário, transporte, comunicação, etc. Mas, quando recebe o sufixo ismo essa prática vira doença. Segundo dados do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas em São Paulo, a compulsão por comprar é hoje um fenômeno que acomete 3% da população brasileira, em sua maior parte mulheres.

O hábito consumista nos traz questões importantes. A primeira é de ordem ética e moral: 20% da população mundial consomem 80% dos recursos naturais. Num país como o Brasil que tem uma desigualdade sócio-econômica enorme, esse fator se agrava contribuindo para o aumento da violência. Outro ponto diz respeito às questões ambientais, pois sabemos que os recursos são finitos e nos relacionamos com eles de forma insustentável. Por fim, não podemos deixar de mencionar os impactos emocionais desse estilo de vida. O consumo virou sinônimo de status, gerando visibilidade. Valores que priorizam o ter em detrimento do ser, o individual acima do coletivo, a competição ao invés da cooperação. Acreditando na posse e oferta de objetos como sinônimo de felicidade e demonstração de afeto.

Mas o Papa Francisco nos lembra o caminho: “Numa sociedade frequentemente embriagada de consumo e prazer, de abundância e luxo, de aparência e narcisismo, Ele (Jesus) chama-nos a um comportamento sóbrio, isto é, simples, equilibrado, linear, capaz de individuar e viver o essencial”.

Então concluo que precisamos ser o sal da terra e a luz do mundo de que fala o evangelho de Mateus (Mateus 5, 13-16), salgar na medida certa e iluminar a quem for preciso sem jamais nos esconder! Assim, embora devamos respeitar as diferenças, podemos também fazer a diferença, optando pela ética e nunca pela desonestidade, escolhendo perdoar antes de sentir raiva, sendo acolhedores, leais e solidários, sabendo ouvir aquele que enfrenta algum problema ou dificuldade, sem expor publicamente as suas falhas, não sendo indiferentes às necessidades do nosso colega, do nosso subalterno ou do nosso chefe, sendo tolerantes, promovendo a reconciliação sem jamais semear a discórdia.

Há 2018 anos, um menino nasceu, sem luxo, mas filho do próprio Deus. Jesus veio para salvar a humanidade com o Amor. E o seu Natal nos relembra que é tempo de viver em harmonia com o irmão, compartilhando a oração, a palavra de Deus, o perdão e o Amor fraterno.

Mas Jesus recebeu presentes dos reis magos ao nascer: ouro, incenso e mirra. É pecado dar presentes? Claro que não! Mas que seja expressão de Amor concreto que temos um para com os outros, sem excessos, de preferência dando ao outro aquilo que necessita. Muitos fazem campanhas de cestas básicas e doam brinquedos para crianças; que sejam, também nesses momentos, frutos de um amor gratuito desta humanidade feita de irmãos, filhos de um mesmo Pai.

Então convido a todos a conservar o Natal da solidariedade, da caridade e do amor, e deixar que Cristo seja o nosso principal consumo.

"Desalojaram Jesus Aproxima-se o Natal e as ruas da cidade cobrem-se de luzes. Uma fila interminável de lojas, uma riqueza fina, mas excessiva. À esquerda do nosso carro, uma fila de renas chama a nossa atenção. Do outro lado do vidro a neve cai graciosamente: ilusão de ótica. Além disso, meninos e meninas em trenós puxados por renas e animaizinhos “criados” por Walt Disney. E mais trenós, Papai Noel, veadinhos, porquinhos, lebres, rãs, fantoches e anões vermelhos. Tudo se move com elegância. Ah! Ali estão os anjinhos… Não! São fadinhas, inventadas às pressas para enfeitar a paisagem branca. Acompanhado pelos pais, um menino fica de ponta de pé e observa, fascinado. Mas, no meu coração, a incredulidade, e depois, quase a revolta: este mundo rico “apoderou-se” do Natal e de tudo o que o rodeia e “desalojou” Jesus! Aprecia do Natal a poesia, o ambiente, a amizade que suscita, os presentes que sugere, as luzes, as estrelas, os cânticos. Aposta no Natal tendo em mira do maior lucro do ano… Mas não pensa em Jesus. «Não havia lugar para Ele na hospedaria…», nem sequer no Natal. Não há dúvida de que este apoderar-se do Natal e chegar até a expulsar o Recém-Nascido, é uma coisa que angustia. Que ao menos em todas as nossas casas grite-se o nome de Quem nasceu, preparando-Lhe uma festa sem igual! Chiara Lubich"

Alberto Brandão Siqueira, médico cardiologista, membro da Pastoral Fé e Política da Paróquia Ascensão do Senhor, coordenador do Setor Humanidade Nova do Movimento dos Focolares, presidente da Associação de médicos católicos da Bahia

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