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O Tempo Comum


  • Marcelino Cícero

Assim como Deus, através dos tempos, foi se revelando ao ser humano paciente e pedagogicamente, primeiro plantando em nossos corações a noção da existência de um ser maior e o desejo de buscar esse ser, depois escolhendo um povo para enviar-lhe profetas que começaram a clarear nas mentes das pessoas a existência de um Deus único, criador de todas as coisas que nos criou por amor e deseja portanto estabelecer conosco uma relação de amor e por fim nos enviando Jesus Cristo, seu único filho, para nossa salvação e reconciliação de toda a criação com Deus (Rm 8,22-23), também a Igreja estabeleceu uma maneira pedagógica de nos ensinar toda essa grande História da Salvação.

Para organizar o conjunto do conhecimento da Revelação consignado nas Sagradas Escrituras, das quais a Igreja é guardiã, ela organizou o Ano Litúrgico de acordo com os grandes acontecimentos dessa nossa História da Salvação.

O diagrama abaixo ilustra a divisão do Ano Litúrgico em cinco períodos distintos e aponta as principais festas celebradas em cada período. Estes períodos são chamados tempos litúrgicos. São eles Advento, Natal, Quaresma, Páscoa e o Tempo Comum.

O Ano Litúrgico inicia com o tempo do Advento, quatro semanas antes do Natal. É o tempo de espera pela Luz das Nações (Is 42,6), o Cordeiro de Deus (Jo 1,29). Depois segue-se o tempo do Natal onde celebramos a chegada do Cristo Salvador no nosso meio. Temos então, um período Comum até a Quaresma, onde nos resignamos e refletimos sobre o grande evento da História da Salvação, quando o Filho de Deus, Jesus Cristo, se entrega à dureza da cruz para salvar a todos. Então celebramos a Páscoa, passagem do Senhor Jesus da morte para a vida e que nos garante a nossa passagem da morte para a vida eterna. Depois de celebrarmos por 50 dias sua Páscoa, então celebramos o envio do Espírito Santo que muniu os apóstolos e toda a Igreja nascente com a sabedoria, coragem e determinação para espalhar sua Boa Nova por toda a Terra (At 2,1-41). E então entramos num novo período Comum que segue até novembro quando celebramos a festa de Cristo Rei do Universo e novo Ano Litúrgico se inicia com o Advento.

O Ano Litúrgico segue um ciclo que se repete a cada três anos que são chamados A, B e C. Neste grande ciclo nós temos a oportunidade de entrar em contato pela liturgia da Palavra em nossas celebrações com quase todo o texto do Antigo Testamento, exceto narrativas descritivas como por exemplo os detalhes das vestes sacerdotais ou a construção das tendas para a Arca da Aliança, como também temos a oportunidade de ler e meditar duas vezes todo o Novo Testamento. A cada ano cabe um evangelista: Mateus para o ano A, Marcos para o B e Lucas para o Ano C. O Evangelho segundo João é reservado para as festas e celebrações especiais devido à sua característica profundidade espiritual e sua peculiar forma de nos dizer quem é Jesus: o Cordeiro de Deus (Jo 1, 29), Luz do Mundo (Jo 8,12; 9,5), o Bom Pastor (Jo 10,11.14) entre outras.

Pois, bem... Vamos nos ater então ao Tempo Comum. À primeira vista, pode nos parecer um tempo menos importante, onde nada de muito especial acontece, mas não é assim. A palavra “comum” no dicionário, entre outros significados, possui dois que nos ajudam a entender o Tempo Comum. O primeiro é “que pertence a dois ou mais elementos” e o segundo é “realizado por duas ou mais pessoas; feito em comunidade”.

Percorremos os três anos de vida pública de Jesus e seus ensinamentos, sinais, a preparação dos discípulos para a missão. Observamos os profetas e vemos como em Jesus se cumpre o anunciado.

Outra coisa importante também acontece no Temo Comum que nos remete ao segundo significado da palavra “comum”: nós percorremos a história da Igreja nascente, primitiva. Vemos todas as dificuldades encontradas pelos apóstolos e pelos discípulos que eles fizeram. Vemos como eles se uniam em comunidade para o bem comum (At 2,42-47), portanto aprendemos que a Igreja se torna realidade pelo trabalho e esforço “realizado por duas ou mais pessoas” que a Igreja se faz “em comunidade”.

Então podemos dizer que após o Pai anunciar pelos profetas a vinda do Seu Filho, após Jesus vir até nós e realizar sua obra redentora e após retornar ao Pai e nos enviar o Espírito Santo, vivemos no Tempo Comum o tempo do Espírito que realiza em nós a continuação da obra de Jesus, espalhando a Boa Nova por toda a Terra até que Ele volte.

Portanto o Tempo Comum é o nosso tempo, tempo da Igreja, tempo de agirmos alimentados pelo Pão do Céu (Jo 6,31-33) e fortalecidos pelo Espírito Santo para que Jesus chegue a todos aqueles que clamam por uma Palavra que possa aliviar seus fardos (Mt 11,28) e dar sentido às suas vidas. Como nos ensina padre Mané, o Tempo Comum é tempo de “fazermos do ordinário o extraordinário”.

Marcelino Cícero Carvalho de Lima, coordenador da Pastoral Catequética e Ministro da Eucaristia

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