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Leitura Orante da Palavra de Deus (II)


Dando continuidade à nossa reflexão sobre a leitura orante da Palavra de Deus, não podemos deixar de considerar que esta experiência é, de certa forma, já um antegozo do Reino, como dizia São Jerônimo: “o Reino dos céus é o conhecimento da Escritura”.

Ali, diante da Bíblia estamos perante a misteriosa presença de Deus que nos interpela através do Espírito Santo. Ele vem em nosso socorro com gemidos inefáveis, pois não sabemos rezar como convém (cf. Rm 8,26). É como se a Palavra de Deus fosse milagrosamente fecundada pelo Espírito Santo, fazendo com que ela mantenha a sua perene juventude.

Mas, afinal, quais as características ou condições que tornam possível essa experiência:

1- Uma leitura preparada por um esforço perseverante: assim como a parábola do semeador (cf. Mt 13), a semente da Palavra tem que ser recebida num terreno acolhedor. Nesse sentido, precisamos fazer um esforço para ser humilde e puro de coração. Santo Agostinho já dizia que a Escritura “não é feita para soberbos”. “Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus” (cf. Mt 5,8);

2- Uma leitura feita num clima de oração: somente assim a Palavra vai revelar os seus segredos. Por isso, o silêncio, a paz interior, o recolhimento são condições imprescindíveis para que haja unificação entre a mente e o coração. “Só acolhe quem se recolhe”;

3- Uma leitura perseverante: leitura e repetição (meditação e ruminação) caminham juntas. Não se trata de memorizar e repetir como um papagaio, mas de penetrar no pensamento de Deus e com Ele criar uma tal intimidade capaz de inebriar a mente e o coração de quem lê;

4- Uma leitura que é um diálogo com Deus: como ouvimos no texto anterior, S. Cipriano dizia: “...quando lês, Deus fala contigo”. Esta convicção nos leva à atitude bíblica por excelência: ESCUTAR. É daqui que surge a relação religiosa onde Deus nos faz as suas interlocuções e nós lhe respondemos. “Ave, cheia de graça...Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus... Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra” (cf. Lc 1, 28-38).

Aos poucos, vamos descobrindo sempre novos elementos, ou melhor, atitudes que nos ajudam a viver mais intensamente a experiência de rezar com a Palavra de Deus que é a fonte inesgotável da Vida Cristã. No próximo texto, vamos conhecer um pouco a clássica sistematização da Leitura Orante feita por Guigo II, um especialista no assunto, monge e prior da Grande Cartuxa – França, no século XII.

Pe. Bento Viana

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