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Leitura Orante da Palavra de Deus (Conclusão)


Foi somente no século XII que Guigo II, Prior da Grande Cartuxa, sistematizou aquilo que já era amplamente vivido nos séculos antecedentes. A leitura orante se expressava de forma ascendente: leitura, meditação, oração e contemplação.

Como a escada de Jacó, esse itinerário tem por finalidade estabelecer uma comunicação entre Deus e o ser humano e vice-versa, que vai da leitura até a contemplação, entendendo os quatro degraus como um único movimento do Espírito. Eles estão, absolutamente, interligados um ao outro, formando uma unidade.

Usando uma imagem plástica, poderíamos dizer que a leitura leva à boca o alimento sólido, a meditação o mastiga e tritura, a oração consegue o sabor, a contemplação é a própria doçura desse alimento ou, a leitura é a casca, a meditação, a substância, a oração, o pedido do que se deseja, a contemplação, o gozo da doçura já alcançada.

Esses degraus, de tal forma estão interligados entre si, e de tal modo se ajudam reciprocamente, que pouco ou nada servem os precedentes sem os seguintes, assim como não se pode adquirir os seguintes sem os precedentes.

Para que a sua Leitura Orante seja proveitosa, vale a pena observar algumas sugestões, tais como: escolha e prepare um lugar e um horário próprios. Esteja bem sentado, acomodado, de preferência numa posição orante, diante de uma mesa que não tenha coisas que possam roubar a sua atenção, mas, de preferência, somente a Bíblia, um ícone ou quem sabe uma vela acesa. O silêncio – interior e exterior – são de extrema importância. O celular, deve estar a mil quilômetros e ainda no modo avião. É oportuno escolher previamente a leitura, de preferência, no início, o Evangelho do dia.

Tendo isso posto, não ouse começar sem antes invocar o Espírito Santo. “O Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza; porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com gemidos inefáveis. E Aquele que perscruta os corações sabe o que deseja o Espírito, o qual intercede pelos santos, segundo Deus” (Rm 8,26-27).

LEITURA – Na consciência dos Padres da Igreja, é a “dócil escuta”, pois quando lemos a Bíblia, é Deus mesmo que nos fala. A leitura deve ser feita com absoluta calma, em atitude de acolhimento, sem jamais se importar com a quantidade, mas, sobretudo, com a qualidade da leitura, detendo-se naquela palavra ou frase que mais lhe tocou. Você pode, se quiser, fazer uma leitura audível. Muitas vezes é oportuno ver passagens paralelas ou alguma nota de rodapé. Não confunda, porém, Leitura Orante com estudo exegético. Cuidado, não se deixe vencer pela aridez, ou por não ter compreendido muito bem o que se leu. Tudo ao seu tempo, ou melhor, no tempo de Deus!

MEDITAÇÃO – também chamada pelos Padres da Igreja como “ruminatio”. É necessário deixar digerir o que foi lido, deter-se nas palavras-chave, confrontando-se, naturalmente, com a vida de cada um. Experimente reler o texto na primeira pessoa. Amar a Palavra para além das palavras e não temer a interlocução. Não existe um “tempo” para cada um desses passos. Deixe-se conduzir pelo Espírito e pelo bom senso e compreenda que os resultados só serão alcançados com disciplina e perseverança. Isso leva tempo!

ORAÇÃO – Se Deus Te falou na leitura é oportuno que você O responda por meio da oração. A Leitura Orante é um amoroso diálogo entre Deus e você e vice-versa, não é um monólogo! Você deve se sentir muito à vontade para se colocar à disposição do Senhor, para louvá-Lo, para agradecer ou mesmo pedir perdão. A paz é a ambiência natural da oração e esta, segundo Jesus, se dá com poucas palavras (cf. Mt 6, 7).

CONTEMPLAÇÃO – é estar na presença de Deus! Tendo perseverado nas etapas subsequentes, experimenta-se Deus, segundo as palavras do próprio Guigo II: “E o Senhor, cujos olhos são fixos nos justos e cujos ouvidos estão não só atentos às suas preces (cf. Sl 34, 16), mas presentes nelas, não espera a prece acabar. Pois, interrompendo o curso da oração, apressa-se a vir à alma que o deseja, banhado de orvalho da doçura celeste, ungido dos perfumes melhores. Ele recria a alma fatigada, nutre a que tem fome, sacia a sua aridez, lhe faz esquecer tudo o que é terrestre, vivifica-a, mortificando-a por um admirável esquecimento de si mesma, e embriagando-a, sóbria a torna.”

Ledo engano achar que a contemplação está desvencilhada da vida concreta. A contemplação dá a cada um o olhar sacramental, ou seja, a capacidade de ver as coisas todas com o olhar de Deus. Isso supõe continua conversão, confronto vital com o Deus Amor, capaz de transformar em amor toda a vida do que crer.

Que a Virgem Maria, Sede de sabedoria, Vaso espiritual, Vaso insigne de devoção, Rosa mística, nos conceda ter parte em sua fecundidade: sua acolhida e entrega foi tal que o Verbo se fez Carne em seu seio. E o fará, sempre, na medida da nossa assiduidade e perseverança à Leitura Orante da Palavra de Deus.

Pe. Bento Viana

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